A última burla dos Franco
Ontem foi o primeiro dia no que a cidadania pudo acceder ao interior da Casa Cornide, o magnífico edifício do século XVIII situado na Cidade Velha no que nasceu o geógrafo e naturalista José Cornide, símbolo da ilustraçom corunhesa. O edifício converteu-se num dos emblemas mais relevantes do expólio do franquismo quando a princípios dos anos 60 passou do património público a mans privadas, concretamente a mans da mulher do ditador, Carmen Polo. Desde aquela as portas da Casa Cornide permanecerom fechadas, agás para a família Franco.

Ao entrar encontramo-nos com vários elementos que nom som próprios da construçom original, como umha estátua, em apariência antiquíssima, de Santiago Peregrino, peças medievais ou elementos da balaustrada da escalinata que fazia parte do Antigo Hospital de Caridade, e que foi trasladada a princípios dos anos 60, quando o edifício foi reformado ao gosto de Carmen Polo e a cárrego do dinheiro de todos os corunheses e corunhesas.

Deverám ser os expertos, como Alfredo Vigo Trasancos, autor do estudo mais exaustivo realizado ao redor do edifício, os que podam oferecer algo de luz ante estes elementos. Mantenhem-se peças originais do edifício como a impressionante porta de madeira da entrada ou os trabalhos em ferro das balconadas, autênticas obras de arte.

Durante muitos anos o movimento memorialístico leva reivindicando a devoluçom do edifício á cidadania, ao património público. A inacçom -quando nom cumplicidade cos Franco- mostrada até hai bem pouco pola da Xunta de Galicia, permitiu a estes burlar a legalidade, negando-se a abri-la ao público, e agora fam-no de maneira mui restritiva, tam só um dia lavorável, em grupos de 5 pessoas e só 4 horas, o que na prática suporá a imposibilidade de que poda aceder muita da gente que o solicita.
Esta inacçom da Xunta também conlevou a imposibilidade de que se puderam catalogar os bens móveis que havia no seu interior. O que mais chama a atençom aos visitantes é o vazio do expólio. O edifício está completamente baleiro. Isto supóm umha última burla por parte da família do ditador, herdeira dumha fortuna, nom só económica, mas também de bens materiais e de obras de arte que os Franco forom acopiando de forma ilegítima durante os tempos da ditadura. Provavelmente nunca saberemos o que levarom porque o seu traslado a um lugar desconhecido fará impossível a sua catalogaçom.
Mas devemos recuperar já a propiedade deste bem. As corunhesas e corunhesas som os legítimos proprietários da Casa Cornide e para que o podamos inscrever é precisso que o Concelho da Corunha, como administraçom pública legitimada para fazê-lo, nom demore mais a apresentaçom da correspondente demanda civil reivindicatória. Cada dia que passa sem fazê-lo aumenta tempo aos mais de 60 anos desta anomalia democrática, e complica mais a sua devoluçom ao património público.
Rubem Centeno, membro da Comisión pola Recuperación da Memoria Histórica da Corunha (CRMH)

