A memória disputada: o caso de Manuel Mantiñan Fafián
O investigador e compañeiro da Comisión pola Recuperación da Memoria Histórica da Coruña Rubem Centeno Paradela, publicaba no xornal Nós a pasada semana, este interesante artigo de analise, no que se rescata a memoria do asasintato impune de Manuel Mantiñán Fafián en Sigrás (Cambre):
As fossas comuns, em muitos casos ainda sem identificar, sem sinalizar ou proteger, som a prova dumha memória em conflito.
O 24 de Setembro de 1936 uns moços que andavam a coletar pinhas atoparom o corpo sem vida dum homem na parróquia de Sigrás (Cambre). A apariçom deste cadáver –posteriormente soterrado sem identificar numha fossa do Cemitério de Sigrás– motivou a instruçom dumha causa. Nas fotografias que acompanham á instruçom pode-se ver o corpo numha padiola rudimentária realizada com fieitos e pousada num muro. As roupas forom depositadas no julgado de Betanços à espera dumha possível identificaçom:
Umha chaqueta rota em vários sítios e mui gastada, de cor marróm escura, com raias verticais; um chaleco marróm mui gastado; um pano a raias azuis; uns pantalóns mahon azuis, mui gastados e rotos; uns calçons brancos, também mui gastados e rotos; umha boina negra; zocas grandes com sola de madeira reforçada com tachas e um cinto de coiro cumha fibela de níquel.
O corpo, segundo a opiniom de Julio Mengotti Gaudenzzi e Enrique Rodríguez Piñeiro, os médicos que procederom a praticar a autópsia, correspondia a um moço de 25 anos. Apresentava três disparos na cabeça que lhe fracturarom o crânio. Também lhe deram dous tiros no peito:
Ao abrir a cavidade torácica observou-se umha grande qüantidade de sangue líquido e perfurados o ventrículo direito e a aurícula esquerda do coraçom, assi como o pulmom esquerdo em toda a sua grossura. Os projectis ficarom alojados na coluna vertebral.
Segundo consta no auto, os médicos decidem nom abrir mais cavidades por nom estimá-lo necessário. Aquela pessoa morrera instantaneamente por shock traumático a conseqüência dos disparos recebidos. Em 1944, e graças a essas fotografias, Rosalia Gómez Barreiro pudo identificar o corpo do seu homem, assassinado oito anos atrás. Tratava-se de Manuel Mantiñán Fafián, natural de Mabegondo, seqüestrado a noite do 23 de Setembro de 1936, provavelmente por um esqüadrom da morte ligado aos Caballeros de La Coruña, a milícia armada que operava na zona baixo a direcçom da Guarda Civil e cuja organizaçom e aprovisionamento de armas ordenara Enrique Cánovas de la Cruz, o golpista ao mando da sublevaçom.
Rosalia Gómez fugiu cos seus filhos de 1 e 4 anos e instalou-se na Corunha. O que lhe ocorreu a Manuel Mantiñán e à sua família nom é umha anédota. A história de Rosalia Gómez é a mesma que a de muitas mulheres que tiverom que sacar adiante às suas famílias no meio do horror. Milhares de cadáveres aparecerom desta maneira, no espaço público, por todo o território galego. Tam só em Agosto do 36, no Cemitério Municipal da Corunha, uns 50 passeados forom sepultados numha zona especificamente habilitada para tal fim. Mortos por hemorrágia interna, assi figuram no registo de defunçons. Esta “epidemia” de hemorrágias foi, em realidade, um crimem de Estado que afectou, fundamentalmente, a qüadros sindicais e trabalhadores, eliminados sistematicamente por meio de execuçons extra-judiciais. Os corpos eram feitos desaparecer em sepulturas anónimas e fossas comuns.
Como chegamos até aquí?
No fundo da Audiência Provincial da Corunha, custodiado no Arquivo do Reino da Galiza conservam-se umhas 70 causas relacionadas coa apariçom de cadáveres de pessoas passeadas. Por suposto nunca se chegarom a derivar responsabilidades penais para ninguém. Mas, de todas elas, a causa pola apariçom do cadáver de Manuel Mantiñán foi a que tivo um percorrido mais longo e surprendente, chegando mesmo a publicar-se no BOP um edito, por odem do juiz instrutor, procurando informaçom para o esclarecimento do crimem. Algo insólito daquela. O juiz era José Spiegelberg y Horno, avó do actual magistrado da Sala Primeira do Tribunal Supremo, José Luís Seoane Spiegelberg.
A pergunta que devemos fazer-nos é por que nom existe, a dia de hoje, nengumha investigaçom judicial sobre as fossas comuns do franquismo. Como chegamos até aquí? Como é possível esta situaçom? Manuel Mantiñán Fafián, o homem das fotografias, era um cidadám. Um cidadám com direitos, igual que as demais pessoas que forom passeadas ou executadas. Nom morrerom por hemorragia interna, como indicam milhares de certificados de defunçom: forom assassinadas. As fossas comuns, em muitos casos ainda sem identificar, sem sinalizar ou proteger, permanecem num limbo jurídico intolerável para qüalquer sociedade democrática. As fossas som a prova dumha memória em conflito. Frente ao esquecimento precissamos avançar, abrir caminho à verdade. Precissamos também umha verdade jurídica.

Artigo orixinal publicado en Nós Diario:

